Há alguns anos fui seduzida pelo Design Thinking. Aquela abordagem que falava em encontrar soluções usando empatia e colaboração pareceu se conectar comigo mais do que os formatos de trabalho que praticava até então. Esta conexão me levou a realmente mudar o meu modo de pensar metodologias e relações de trabalho, tanto que de uma carreira no mundo corporativo e hierarquizado, decidi conhecer o trabalho em rede. Era um mundo novo, onde se falava em autogestão, flexibilidade, autonomia, trabalho sem chefe, regras ou padrões estabelecidos. Queria vivenciar essa estrutura incrível, ou melhor, esta não-estrutura, de perto.
Foi então que comecei a conhecer pessoas que também buscavam novas maneiras de trabalhar e gerir negócios. Percebi que havia um grande ecossistema em movimento. Pessoas que sentiam o mesmo incômodo de atuar da mesma forma em um mundo que oferece desafios cada vez mais complexos. Em comum, a maior parte delas havia feito a transição de anos de experiência em grandes empresas e buscava um novo lugar para compartilhar os aprendizados e somar conhecimentos, agora com mais clareza de propósito.
Ao me aproximar de pessoas que atuavam em rede, na qual profissionais com experiências e perfis distintos encontram valores e propósitos comuns para atuar, sem crachá ou qualquer vínculo formal, percebi que havia diferentes formatos e muitas dúvidas de como seguir. É, a liberdade tem dessas coisas, não há um manual para apontar o rumo ou avisar dos riscos.
Lidar com as interações humanas é algo realmente complexo, ainda mais quando tiramos todos daquela caixa em que os limites são muito claros. É aí que entra a tal da autogestão. Para compreender o termo, nada melhor do que viver a prática. E sim, há alguns estágios, como o de deslumbramento com a desejada autonomia e o fluxo natural. Até que você descobre que para qualquer sistema vivo funcionar em harmonia, alguns acordos são necessários.
Hoje vivencio este processo de autogestão em duas redes em que atuo. Ao mesmo tempo, estudo metodologias e sistemas que apresentam alguns caminhos para que o resultado seja um trabalho ágil, eficaz e que me faça bem. Posso dizer que já abandonei algumas certezas, aprendi novos conceitos, mudei padrões de pensamento e me desafio a cada dia.
Se eu tivesse que escolher alguns aprendizados que fazem sentido na minha experiência com autogestão até agora, seriam eles:
- Na prática da autogestão, quem norteia as decisões é um propósito comum e não um indivíduo.
- Autogestão pressupõem a distribuição de poder de maneira mais uniforme.
- Autonomia funciona quando há clareza de papéis e responsabilidades.
- Não há dependência do outro, mas interdependência.
- Em estruturas autogeridas, a liderança é situacional. Aprenda a ser um bom líder e um bom liderado.
- As decisões não precisam ter consenso de todos, mas sim consentimento.
- Eu ofereço minhas habilidades e complemento meus saberes com o saber do outro.
- Os feedbacks constantes impulsionam seu amadurecimento pessoal e profissional.
- Um ambiente de confiança é fundamental.
- Não se preocupe com um cargo e sim em colocar seus talentos a serviço das demandas existentes.
- Cuide das relações, autogestão não é trabalhar sozinho.
- Contribua com sua autonomia sem diminuir a autonomia do outro.
Elaine Campos, publicitária, facilitadora e parceira da Rede TECERE